eu no carrinho que herdei do marcelinho
eu gostava de visitar a dona Júlia. engraçado, elas eram amigas, dona júlia e minha avó, e se tratavam assim: "como vai, dona Leonor, a senhora está bem?" "sim, dona Júlia, e a senhora?". com toda a formalidade.
minhas lembranças sobre elas estão certamente fragmentadas e mixadas. mas é assim que me lembro: íamos eu e meus avós visitá-los, a dona júlia e o seu horácio. não sei se confundo o nome dela com o nome da avenida, mas na minha memória passávamos pelo túnel da 9 de julho para visitá-los e eu gostava tanto daquela parte da cidade. o apartamento deles ficava num prédio que ela mesma vinha abrir pra nós a porta principal (na sena madureira?). era clarinho por fora e escuro lá dentro dos corredores. no apartamento, de uma janela grande dava pra ver o telhado com telha ondulada de uma construção vizinha. eu tinha vontade de pular a janela e andar ali.
eu também tinha muita vontade de sentar na cadeira de balanço do seu horácio. um dia levei um susto tão grande: senti escondido na cadeira enqto os 4 estavam na cozinha; a cadeira foi pra trás e eu sinto a vertigem até hoje.
na cozinha havia uma mesinha dessas pequenas, junto da parede, e dona júlia preparava sanduíches. talvez houvesse bolo e refrigerante, ou café com leite. mas tinha sanduíche.
e toda vez eu puxava minha avó e dizia... "per-gun-taaa!" ela me olhava feio mas perguntava: "e o marcelinho, dona júlia?" seja o que for que ela respondesse não importava mesmo, já que ele não estava lá. e eu sempre visitava dona júlia na esperança de que marcelinho estivesse lá pra gente brincar. eu havia herdado tanta coisa dele. tantas vezes eu ouvia o seu nome: "esse casaco foi do marcelinho". "esse sorveteiro". "esse tico-tico". então ele era criança e gostava dos mesmos brinquedos, ia ser tão bom que estivesse lá, porque olhar o telhado vizinho e tentar sentar escondido na cadeira do seu horácio e comer sanduíches na cozinha também cansava.
dona júlia era cega de um olho. aconteceu fritando um ovo. e até hoje penso nela com carinho e prevenção, toda vez que frito um ovo. e falar em cozinha e comidas e júlia me lembro de quando seu horácio perdeu o olfato. como podia? e eu me sentia tão triste por ele.
meus avós e esse casal conheceram-se porque ambos tiveram um filho internado em hospital psiquiátrico. eu sei pouco sobre isso. mas minha avó e meu avô fizeram grandes amizades vinculadas em solidariedade.
d júlia e seu horácio tinham também duas filhas: lolinha e ióle. yole? eram nomes sempre mencionados nas conversas. lembro da yole visitando nossa casa. samambaias na sala estavam na moda, e lá em casa tinha duas enormes com um pôster de foto minha no meio. que horror, dels. rs.
lembro do duplex da lolinha e edro na bela cintra. o quarto do marcelinho com cortiça nas paredes. foi um must pra mim por anos. até hoje, pra falar a verdade. lembro da coleção de corujas. e da ióle. marcelinho veio cumprimentar a gente, eu estava de amarelo e vermelho; ele me disse: "como vc está bonita!".
Yole na minha adolescência virou modelo de mulher mais velha. cabelos longos, brancos não tintos, pele superbronzeada. linda, charmosa, divertida, e eu babei por ela. lá se vão quase 30 anos e não dei conta de convivermos o tanto que eu gostaria. minha avó falava com ela e dizia: "ióle, vc tem uma fã!" e ela ficava feliz. ela tinha um casal de filhos, "se não me falha", esqueci o nome da menina (uma afortunada pela mãe bacana que ela tinha), e o filho talvez fosse Aírton? E o nome do marido eu lembro jájá (editando em 13/11: lembrei, era Sydnei - e fica a mesma dúvida pra ys e/ou is). Ele ou Edro que trabalhou na Swift? Isso não vou lembrar.
Lembro do hobbe dourado da Lolinha, ela fumando sentada à beira da cama com um mule de plumas. A imagem dourada de uma mulher lunar, noturna, intimista. Yóle e seus cabelos gris, eram a imagem prateada de uma mulher solar, diurna, extrovertida.
Um dia minha mãe ligou pra Lolinha. Contou do falecimento da minha avó, perguntam-se deste e daquele como estão, e Lolinha diz: "bom, do Marcelo vc deve saber pelas revistas. ele casou, teve filhos, separou e agora casou com a Luciana". Minha mãe, totalmente à parte do mundinho estrelado, ficou sem jeito de dizer que não, deu uma risadinha e em seguida me ligou e contou e perguntou: quem é, vc conhece? "Não".
Horas depois e um pouco de google eu descubro, good god, meu quase amiguinho de infância é uma celebridade... eu jamais reconheceria.
E me deu vontade de registrar tudo isto porque acabo de descobrir - por uma revista - que Lolinha se foi deste mundo já tem um ano. Não mais poderei ir vê-la. E penso que preciso muito ver Yole. Carinho.
É, meninas, nosso contato foi tão esparso e tão marcante. Nomes marcantes. Mulheres marcantes. Imagens na memória para sempre.